Embora façam muito sucesso na ficção — como Salem, de “Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira”, e Luna, de “Sailor Moon” —, os animais de pelagem escura ainda lidam com um forte preconceito na vida real. De acordo com o levantamento “Panorama da Adoção no Brasil – ONGs”, conduzido pelo Opinion Box a pedido da GoldeN e do Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC), 69% das instituições afirmam que bichos pretos encontram barreiras significativas para conquistar uma família.
O peso das crendices populares e da idade
O preconceito tem raízes profundas na história, já que a cor da pelagem foi associada por séculos a crenças de azar e bruxaria. Esse fator cultural invisível se soma a outro obstáculo apontado pela pesquisa: a preferência quase absoluta por filhotes, que representam 81% das adoções mais fáceis. Dessa forma, um felino escuro e adulto acaba enfrentando um desafio duplo nos abrigos.
Sobre essa questão cultural, o médico-veterinário, psicanalista e gerente de treinamento da PremieRpet, Ricardo Menezes, destaca: “O gato preto carrega um peso simbólico que não pertence a ele. É uma construção cultural antiga, que não tem base no comportamento do animal”.
O especialista também reforça o afeto que esses animais oferecem na rotina diária:
“Como psicanalista, costumo dizer que aquilo que projetamos no outro diz mais sobre nós do que sobre ele. E o que esses gatos devolvem é companheirismo: eles acompanham o tutor pela casa, escolhem o colo, ronronam no fim de um dia difícil. Quem dá uma chance a um gato preto costuma descobrir que ele faz um bem enorme à rotina e às emoções de quem o acolhe.”
Crescimento da população felina e o desafio da guarda responsável
O cenário geral para os felinos é positivo, já que eles lideram as preferências nas ONGs com 41% das adoções, superando os cães, que somam 32%. Dados do Instituto Pet Brasil indicam que o país já abriga mais de 30,8 milhões de gatos, impulsionados pela tendência de adaptação a imóveis menores.
Contudo, a falta de preparo ainda preocupa. O estudo mostra que 71% dos adotantes possuem apenas noção básica sobre guarda responsável, gerando devoluções frequentes nos primeiros noventa dias devido ao desconhecimento sobre adaptação e despesas médicas.
Sobre isso, Ricardo Menezes alerta:
“É preciso entender que cada gato tem a sua personalidade e o seu próprio tempo de adaptação, e que isso deve ser respeitado. Também é fundamental planejar os custos: alimentação, vacinas, consultas ao veterinário e, claro, os mimos que fazem parte da vida de quem ama um bichano. A adoção não termina no ‘sim’: ela é uma construção diária de um convívio de muito amor”.
Orientações essenciais para uma adoção consciente
Para quem deseja somar forças e superar os velhos mitos, especialistas recomendam seguir algumas diretrizes antes de levar o novo amigo para casa:
- Foque na personalidade: Avalie o temperamento junto aos protetores, deixando a cor em segundo plano.
- Considere animais adultos: Bichos maiores já têm o comportamento consolidado, facilitando o encaixe na rotina.
- Organize o orçamento: Custos com vacinas, castração e manutenção devem ser previstos desde o início.
- Respeite o tempo de transição: O trimestre inicial é o mais delicado para a adaptação no novo ambiente.
- Visite mais de uma vez: O contato repetido ajuda a fortalecer laços antes da decisão final.
- Pense a longo prazo: A adoção é um compromisso definitivo para toda a vida do pet.
Superar as barreiras culturais exige olhar além da aparência para enxergar o companheirismo que esses animais estão prontos para oferecer nos lares brasileiros.




