Em um cenário marcado pela sobrecarga de informações e pela pressão constante por produtividade, o artesanato surge como uma ferramenta eficaz para desacelerar. Atividades como costura, bordado e pintura permitem que o indivíduo direcione sua atenção para um processo criativo, saindo do ciclo automático das demandas diárias.
O papel da neurociência na criação manual
Para o Dr Jorge Guedes, psicanalista e doutor em neuropsicologia, neurociência, e psicoterapia, o estilo de vida contemporâneo é o principal vilão da saúde mental. “Vivemos em uma sociedade que nos estimula a fazer várias coisas ao mesmo tempo, responder rapidamente, cumprir tarefas e estar constantemente conectados”, resume Dr Jorge Guedes.
O especialista destaca que o trabalho manual exige uma dedicação que força o cérebro a mudar de ritmo. “nesse contexto, atividades como o artesanato podem representar uma experiência importante de desaceleração. Ao trabalhar com as mãos, a pessoa direciona sua atenção para uma atividade concreta, acompanha cada etapa da criação e passa a experimentar um ritmo diferente daquele imposto pelas demandas cotidianas”, resume o psicanalista. Além disso, o ato criativo serve como uma âncora: “É uma oportunidade de sair, ainda que por alguns instantes, do excesso de estímulos e se concentrar no que está acontecendo no presente.”, resume o psicanalista Dr Jorge Guedes.
Desenvolvimento de habilidades e paciência
Além do relaxamento, o processo de criar estimula competências cognitivas importantes. “Do ponto de vista do comportamento humano, o processo de criar também merece atenção. Escolher materiais, combinar elementos, experimentar possibilidades, lidar com pequenos erros e encontrar soluções são experiências que mobilizam a criatividade, a concentração e a capacidade de resolução de problemas”, explica o psicanalista.
Ele acrescenta: “Além disso, transformar uma ideia em algo concreto pode proporcionar uma sensação de realização e fortalecer a percepção de que somos capazes de produzir, aprender e descobrir novas habilidades. Outro ponto interessante é que o artesanato permite resgatar uma relação mais prazerosa com o tempo”.
Respeitando o próprio tempo
Uma das maiores lições do trabalho manual é a quebra da urgência. Por fim, “diferentemente de muitas atividades da rotina, em que o resultado precisa ser imediato, o trabalho manual exige etapas, paciência e continuidade. Nem sempre é possível acelerar o processo, e talvez esteja justamente aí parte de seu valor: aprender a respeitar o próprio ritmo e compreender que nem tudo precisa ser feito com pressa ou ter uma finalidade produtiva”, explica Dr. Jorge.
Relatos e socialização em oficinas
Para a designer Fernanda Elias, 28, o contato com técnicas manuais, como a estamparia, foi transformador. “Sou uma pessoa muito agitada e trabalhar com criatividade, criação e empreendedorismo deixa minha mente ainda mais elétrica. As aulas me fazem simplesmente parar e estar presente. A cada segundo em que estou com o estilete na mão, me sinto concentrada, conectada, experienciando apenas aquele momento. Isso tem relaxado minha mente de forma imensurável. Sinto-me mais calma, mais paciente, admirando mais as imperfeições e entendendo que elas fazem parte da arte”, relata Fernanda Elias.
A dimensão coletiva também é fundamental. Em projetos como o realizado no CATe Central, em São Paulo, a troca entre participantes fortalece vínculos. “Além de aprenderem uma nova técnica, elas encontram na oficina um momento de relaxamento, criatividade e cuidado consigo mesmas. É inspirador acompanhar a evolução delas, ver as alunas ganhando confiança, compartilhando ideias, valorizando suas próprias produções e incentivando as colegas”, afirma Kizzi Kauana, coordenadora do projeto.
O educador Eduardo Fugisse reforça esse impacto: “Acredito que todas as práticas ligadas às artes contribuem para o bem estar emocional e auto estima e desenvolvimento pessoal das alunas. É notável que a maioria das participantes criam redes de amizade durante os encontros, a interação durante o curso fazem com que elas se ajudem, deem opinião, se incentivem e admirem a produção de suas colegas”, resume educador Eduardo Fugisse.
É importante ressaltar, contudo, que o artesanato não substitui tratamentos clínicos. “Não significa que o artesanato seja um tratamento para ansiedade, estresse ou outros problemas emocionais, mas ele pode funcionar como uma atividade de lazer e expressão pessoal, contribuindo para uma rotina com mais momentos de prazer, presença e equilíbrio”, diz Jorge Guedes. “O importante é não transformar até mesmo o descanso em mais uma obrigação. A atividade precisa fazer sentido para a pessoa, ser agradável e respeitar suas possibilidades. Às vezes, permitir-se criar algo simplesmente pelo prazer de fazer já é uma mudança significativa na maneira como nos relacionamos com o cotidiano.”, finaliza o psicanalista.




