domingo, 1 de novembro de 2026
Esportes

Presidente do Vasco relembra batalha contra a depressão no Palmeiras

Atual dirigente cruz-maltino enfrentou graves problemas psicológicos e físicos entre 2001 e 2005 antes de encarar o ex-clube em decisão.

Pedrinho superou depressão no Palmeiras após lesões e reencontra clube em decisão pelo Vasco

O atual presidente do Vasco, Pedrinho, carrega em sua trajetória no futebol muito mais do que títulos e glórias dentro de campo. Antes de assumir o comando do clube de coração, o ex-jogador precisou travar uma batalha silenciosa contra a depressão justamente durante sua passagem pelo Palmeiras, equipe que cruza o caminho do time vascaíno neste domingo em confronto decisivo pela semifinal da Copa do Brasil.

O início do tratamento e o apoio de Luxemburgo

O período em solo paulista, compreendido entre os anos de 2001 e 2005, foi marcado por intensas dificuldades tanto no aspecto físico quanto no emocional. Foi vestindo a camisa do alviverde que o meia sofreu sua terceira grave lesão no joelho em uma partida justamente contra o Vasco. A situação gerou um profundo sentimento de culpa no atleta, que chegou a sugerir que o clube paulista suspendesse o pagamento de seus salários durante o período de afastamento — proposta recusada pelo então presidente Mustafá Contursi.

A virada no cenário começou através de uma intervenção do então técnico Vanderlei Luxemburgo, que indicou profissionais para iniciar o acompanhamento psicológico com a psicóloga Suzy Fleury e o psiquiatra Antônio Guerra. O ex-jogador relatou em uma live realizada em 2020 que pouquíssimas pessoas dentro da instituição tinham ciência do que estava ocorrendo nos bastidores.

“O dedão do meu pé tinha um problema de sangue pisado. Eu já tinha o apelido de Podre, Podrinho. Se tivesse que ficar mais três semanas parado para cuidar de sangue pisado, aí mesmo que a imprensa ia acabar comigo.”

“Eu estava num clube que devia ter 35 jogadores, mais o staff, todas as pessoas que trabalham com futebol… Ninguém sabia da minha depressão, só os médicos sabiam. Os meus amigos não sabiam.”

O peso do isolamento e a luta pela conscientização

Em entrevista concedida neste ano ao Globoplay para a série Sessão de Terapia, o ex-atleta detalhou os momentos mais críticos da doença, caracterizados pelo isolamento extremo e crises de choro recorrentes antes mesmo de compreender a gravidade do problema que enfrentava.

“Depressão, no meu caso específico, ela dominou a minha mente completamente e eu já estava num processo muito ruim, enfornado dentro de um quarto, dormindo no banheiro trancado, mesmo tendo um quarto. Deitado no chão do banheiro e tendo que ir para o treino, chorava até o caminho.”

“Eu passava praticamente o dia inteiro chorando, sem saber o que eu tinha e chegava no treino, eu tentava disfarçar, obviamente para que ninguém percebesse. Mas ficava com meu olho muito inchado, eu dava alguns sinais antes de descobrir. E eu não falava pra ninguém porque eu mesmo não sabia o que que eu tinha.”

Com a reabilitação, o dirigente passou a utilizar sua voz para quebrar tabus sobre saúde mental no esporte, destacando que a estabilidade financeira muitas vezes mascara o sofrimento psicológico perante a sociedade.

“Eu comecei a ver a importância de eu falar sobre isso, ainda mais num ambiente que era o que eu fiz parte muitos anos, que foi o ambiente do futebol que você não poder dividir isso. As pessoas não entendem e não é de maldade. Só que quando você está no auge da doença, você acaba ficando com raiva das pessoas por elas não te compreenderem, acharem que aquilo ali é uma tristeza, é um mimimi, qualquer coisa desse tipo. O jogador ganha bem. Então as pessoas já atrelam à condição financeira.”

“Você imagina um cara que é chamado de rei, um cara que tinha um dos maiores salários do Palmeiras… esse cara pode estar com depressão. Então isso para a sociedade era inaceitável, mas o silêncio de você ter que conviver com a doença, ele é tão cruel quanto a própria doença para os meus amigos ou familiares.”

Superação e o histórico no futebol

Após o tratamento adequado, o ex-jogador recuperou o bom futebol e viveu sua fase mais artilheira pelo clube paulista em 2004, acumulando 127 partidas e 31 gols antes de passagens por outras equipes e o retorno definitivo ao Vasco em 2008, clube onde foi revelado e conquistou a Libertadores, a Copa Mercosul e dois Campeonatos Brasileiros.

Apesar da forte identificação com o Gigante da Colina, o período no Palmeiras ganhou um significado que transcende as quatro linhas, representando a vitória sobre uma condição que, segundo suas próprias palavras, quase lhe custou a vida.

“Se perguntarem: ‘O que você prefere ter cinco lesões no joelho ou a depressão?’. Prefiro ter as lesões, porque a depressão quase tirou a minha vida. Quero falar para vocês o seguinte: a vida é maravilhosa. Por causa dessa doença maldita, que vai ser o mal do século, eu perdi três anos da minha vida. Três anos em que eu poderia ter enfrentado minhas lesões, mas de forma diferente”, declarou em 2020.

Agora, o reencontro com o Palmeiras acontece sob uma perspectiva totalmente nova. Na presidência do clube carioca, Pedrinho busca a glória inédita em sua gestão diante de um adversário que marcou profundamente tanto sua carreira nos gramados quanto sua corajosa luta em favor da conscientização sobre a saúde mental.

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