Em uma trajetória marcada por desconfiança inicial e posterior consagração, o técnico Tite reencontra o Internacional neste sábado, desta vez sentado no banco de reservas visitante como comandante do Botafogo. Há quase duas décadas, a chegada do treinador ao Beira-Rio exigiu superação de barreiras políticas e resistência da própria diretoria colorada.
A saída de Abel Braga e a busca por um substituto
No início de 2008, o clube gaúcho precisava encontrar um substituto para Abel Braga, que havia aceitado uma proposta para treinar o Al-Jazira, dos Emirados Árabes. Nelsinho Baptista chegou a ser contatado, mas a negociação não avançou devido à rejeição da torcida, que ainda guardava mágoas de sua saída em 1996 rumo ao Corinthians.
A resistência interna e o passado no Grêmio
Nos bastidores, o nome de Tite gerava divergências. Enquanto Giovanni Luigi, então vice de futebol, e o ex-presidente Fernando Carvalho apoiavam a contratação, o presidente Vitorio Piffero demonstrava forte relutância. O principal entrave era o histórico do técnico no arquirrival Grêmio, onde havia conquistado a Copa do Brasil de 2001.
– O Tite tinha vários bons trabalhos. Nós o acompanhávamos. Quando houve a saída do Abel, ele era o meu nome preferido. Tinha uma pequena rejeição de algumas pessoas, mas o Tite sempre foi um grande profissional – contemporiza Luigi.
O time atravessava momento delicado e ocupava a zona de rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Após uma reunião decisiva onde o treinador demonstrou profundo conhecimento da equipe e garantiu capacidade para liderar a retomada, as arestas foram aparadas e a cúpula colorada deu o sinal verde.
– Estávamos em um momento ruim. Eu tinha uma boa relação com o Tite. Achei que ele seria um grande nome. Havia a restrição, a vinculação ao Grêmio, mas isso não existe. Me convidaram para participar da reunião e surgiu a ideia de voltar para ser o assessor do Giovanni – recorda Carvalho.
Estreia vitoriosa e a venda de Fernandão
A estreia de Tite aconteceu justamente contra o Botafogo, terminando em vitória por 2 a 1 no Beira-Rio. Contudo, o dia também ficou marcado pela saída do capitão Fernandão, negociado com o futebol do Catar.
– Ainda recebemos a notícia da venda do Fernandão. Foi uma surpresa muito grande, mas o Tite estreou e ganhamos – conta Carvalho.
Glória internacional e conquistas no Beira-Rio
Sem seu principal astro, o clube trouxe D’Alessandro para liderar a equipe ao lado de Alex e Nilmar na campanha histórica que culminou no título da Copa Sul-Americana de 2008. O desempenho convenceu a diretoria, e Piffero não escondeu os elogios durante a reta final do torneio continental.
– Vou votar no Tite para melhor em campo. Ele conseguiu fazer a equipe, com 11 e com dez jogadores, jogar de maneira compacta – disse o então mandatário colorado.
No ano seguinte, o comandante conduziu o grupo à conquista invicta do Campeonato Gaúcho com uma goleada expressiva sobre o Caxias, utilizando um esquema tático inovador com quatro zagueiros.
– Foi um dos melhores times que tivemos. Bolívar foi para a lateral direita e o Marcão para a esquerda. Jogávamos com quatro zagueiros e tínhamos a velocidade do Taison. A construção foi mérito do Tite. Fomos muito felizes – vibra Luigi.
Após passagens vitoriosas por outras equipes e pela Seleção Brasileira, além de sondagens frustradas para um retorno a Porto Alegre em gestões posteriores, o experiente treinador volta a cruzar o caminho do Colorado em momento decisivo na tabela do Brasileirão.



