sexta-feira, 23 de outubro de 2026
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Lipoproteína(a) alta: por que hábitos saudáveis não garantem proteção

Estudo clínico recente revela novos desafios no tratamento do marcador genético que intriga cardiologistas e endocrinologistas.

Lipoproteína(a) alta: por que uma vida saudável pode não eliminar o risco cardiovascular

Uma pessoa pode adotar uma rotina com atividade física, dieta equilibrada, sono regulado e ausência de cigarro, mas ainda assim carregar um perigo silencioso. Trata-se da lipoproteína(a), um fator de risco cardiovascular importante que costuma passar despercebido nos exames médicos de rotina e desafia especialistas em todo o mundo.

O impacto do estudo Lp(a)HORIZON

O cenário das discussões médicas mudou após a divulgação dos dados iniciais do Lp(a)HORIZON, um dos ensaios clínicos mais aguardados para 2026. O objetivo principal era verificar se a administração do medicamento pelacarsen seria capaz de diminuir eventos cardíacos em pacientes com doença aterosclerótica estabelecida e taxas elevadas do marcador. Embora o remédio tenha reduzido a substância, a pesquisa falhou em comprovar queda nos eventos cardiovasculares em relação ao grupo placebo.

Para a endocrinologista Dra. Isis Toledo, o cenário atual traz questionamentos cruciais para a classe médica. “Uma pessoa pode fazer exercício, ter uma boa alimentação, não fumar e cuidar do sono, mas isso não significa que esteja completamente protegida. Se tiver uma lipoproteína(a) elevada, existe um risco adicional que precisa ser considerado”, afirma a especialista.

O peso da genética no perfil lipídico

Diferente do colesterol LDL comum, cujos níveis sofrem forte influência de medicamentos, peso e dieta, a Lp(a) tem sua concentração ditada pela genética. Ela permanece estável ao longo da vida, aumentando as chances de o paciente desenvolver problemas como estenose calcífica da válvula aórtica e doenças ateroscleróticas. Diretrizes recentes da Sociedade Europeia de Cardiologia já recomendam a dosagem do marcador ao menos uma vez durante a fase adulta.

Apesar da relevância, o exame não integra a lista padrão de testes laboratoriais. “Às vezes, o paciente olha para o LDL, vê um resultado que não parece tão preocupante e acha que está tudo bem. Mas ele pode ter uma lipoproteína(a) elevada, que também contribui para a formação de placas nas artérias”, pontua a endocrinologista.

Hipóteses para o resultado inesperado

A interrupção dos benefícios clínicos esperados com o uso do pelacarsen abriu margem para diversas teorias científicas. O cirurgião cardiovascular Dr. Edmo Atique Gabriel aponta que o perfil dos voluntários pode ter influenciado o desfecho, visto que muitos já apresentavam controle rigoroso do LDL no início da pesquisa.

“Muitos participantes já tinham um importante fator de risco bem controlado. Assim, o risco que restava e o benefício adicional que se poderia medir talvez fossem menores”, analisa o cirurgião cardiovascular. Outro ponto levantado envolve o tempo de exposição ao problema, já que o tratamento foi iniciado apenas após o avanço da doença.

Apesar disso, o médico ressalta que as evidências sobre a causalidade do marcador genético continuam válidas. “O estudo testou se uma forma específica de baixar Lp(a), iniciada em pessoas que já tinham doença cardiovascular, reduziria eventos durante o acompanhamento. Estudos genéticos observam diferenças de Lp(a) presentes desde cedo, ao longo de décadas. Portanto, as duas perguntas não são idênticas”, esclarece o médico.

Enquanto novas moléculas continuam em fase de testes e a medicina busca terapias mais eficazes, a recomendação para o público geral permanece a mesma: investigar a presença da lipoproteína(a) pelo menos uma vez na vida adulta para aprimorar o controle preventivo de todo o sistema cardiovascular.

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