O governo Trump assumiu o poder determinado a enfraquecer o modelo de financiamento à pesquisa criado no pós-guerra, que transformou os Estados Unidos no grande motor mundial de descobertas científicas.
Grande parte dessa agenda — cancelar estudos, reduzir drasticamente o número de profissionais científicos e impor maior supervisão política à concessão de recursos — entrou em vigor sem a cooperação do Congresso, que, mesmo sob controle republicano, resistiu aos esforços da Casa Branca para reformular a estrutura de pesquisa do país.
Agora, os democratas vão assumir o controle do Congresso, e alguns já prometem fazer mais do que apenas se defender. Eles esperam começar a reverter as mudanças implementadas durante o governo do presidente Donald Trump.
Ainda não está claro se isso de fato acontecerá.
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“A realidade é que a maior parte das manobras tem vindo do governo”, disse Jeremy Berg, ex-diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, conhecidos pela sigla NIH. “E isso provavelmente continuará.”
Da inteligência artificial à exploração espacial, passando pela enorme estrutura de pesquisa dos Institutos Nacionais de Saúde, o sistema científico dos Estados Unidos é vasto.
Veja algumas tendências a acompanhar.
A máquina de concessão de recursos
Nos últimos dois anos, um Congresso liderado pelos republicanos rejeitou grandes cortes propostos para o orçamento do NIH, bloqueou planos de formalizar o controle político sobre o processo de concessão de recursos e limitou o poder de autoridades de saúde de reduzir de forma mais agressiva o número de financiamentos para pesquisas médicas.
Ainda assim, o governo Trump recorreu a decretos presidenciais, cortes de pessoal, novas camadas de revisão política e manobras burocráticas pouco conhecidas para desacelerar ou dificultar parte dos gastos com pesquisa científica.
Após a eleição desta semana, parlamentares democratas prometeram retomar os poderes sobre os gastos federais que, segundo eles, deveriam ter sido exercidos muito antes.
“O poder sobre o orçamento pertence ao CONGRESSO!”, escreveu a senadora Patty Murray, do Estado de Washington, principal democrata no Comitê de Apropriações do Senado, na rede social X. “Não é dinheiro de Trump. Os dólares dos contribuintes pertencem ao povo americano.”
Ela e outros parlamentares poderiam, por exemplo, ampliar a fiscalização sobre os recursos que o governo Trump reteve. O Congresso também poderia limitar de forma mais rígida as reduções no número de financiamentos de pesquisa concedidos.
A deputada Zoe Lofgren, democrata da Califórnia, que busca liderar o Comitê de Ciência da Câmara, afirmou em entrevista na quarta-feira que os parlamentares precisam ser mais “prescritivos” e começar a definir exatamente como o Congresso pretende que o dinheiro federal seja gasto.
“Em alguns casos, o dano não pode ser desfeito”, afirmou Lofgren, observando que muitos cientistas mais jovens deixaram suas áreas de atuação ou se mudaram para o exterior por causa das interrupções no financiamento. “Mas podemos evitar que isso continue.”
Tão relevantes quanto foram os esforços do governo para reformular o processo de avaliação e concessão de recursos científicos. Sob Trump, os valores totais destinados à pesquisa permaneceram praticamente os mesmos. Mas seu governo passou a exercer maior discricionariedade sobre como esse financiamento é gasto — mudanças que estão, em grande parte, além do poder do Congresso de reverter.
“A turbulência e os danos vieram da Casa Branca, principalmente do OMB”, disse Sudip Parikh, diretor-executivo da Associação Americana para o Avanço da Ciência, um importante grupo de representação científica, referindo-se ao Escritório de Gestão e Orçamento. “A mudança no Congresso não necessariamente resolverá tudo isso.”
Agora, os pedidos de financiamento são examinados em busca de terminologias consideradas indesejáveis; em alguns casos, passam pela avaliação de nomeados políticos; e são supervisionados por cientistas alinhados às prioridades do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., e de outras lideranças políticas.
Com os novos processos, tornou-se mais difícil para os laboratórios prever quando — ou se — suas propostas de pesquisa receberão financiamento.
Ryan D. Enos, cientista político da Universidade Harvard, disse que a ciência americana prosperou, em parte, graças ao grande volume de recursos federais destinados à pesquisa básica nas universidades após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria.
Mas os laboratórios também dependiam de que esse financiamento permanecesse estável e previsível. E essas normas foram tão profundamente abaladas, disse Enos, que uma única eleição não seria suficiente para restaurá-las.
“É um mundo muito diferente agora”, afirmou.
Novos alvos de investigação
Como partido majoritário no Congresso, os republicanos tinham autoridade para realizar audiências de fiscalização e intimar testemunhas — um poder que, em algumas ocasiões, utilizaram para examinar cientistas, incluindo uma audiência contenciosa de um comitê do Senado com o dr. Anthony Fauci neste verão.
Esses esforços talvez não terminem completamente com o novo Congresso. Como presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado, o senador Rand Paul, republicano do Kentucky, conduziu uma investigação sobre Fauci. Ele poderia continuar divulgando documentos prejudiciais que recebeu do governo enquanto os republicanos controlavam a Casa.
Mas Paul deve ser substituído na presidência do comitê por Maggie Hassan, democrata de New Hampshire, uma crítica contundente de Trump que defendeu Fauci. Ela e outros parlamentares democratas estarão em posição de encerrar essas audiências e investigar, em vez disso, o governo Trump.
“Grande parte da forma como a nova maioria tentará promover mudanças será por meio de investigações e audiências”, disse Mitch Benzine, consultor sênior da área de investigações congressionais do escritório de advocacia Eversheds Sutherland.
Parikh afirmou que isso poderia incluir investigações sobre a retenção, pelo governo, de recursos apropriados pelo Congresso e sobre as mudanças feitas no processo de análise dos pedidos de financiamento.
Os parlamentares poderiam até buscar examinar universidades que fizeram acordos com o governo Trump em investigações federais de direitos civis ou em casos de congelamento de recursos, ainda que apenas como forma de obter provas sobre os ataques da Casa Branca ao financiamento federal para pesquisa.
Ainda assim, as eleições também retiraram do Congresso alguns defensores firmes da pesquisa médica no campo republicano, entre eles a senadora Susan Collins, republicana do Maine e defensora histórica do financiamento ao NIH. Alguns cientistas começaram a discutir a necessidade de formar uma nova geração de apoiadores entre os republicanos no Congresso.
Roger Severino, vice-presidente da conservadora Heritage Foundation e autoridade de saúde no primeiro governo Trump, disse que a eleição dificilmente representou uma rejeição aos esforços do governo para cortar estudos médicos relacionados a raça ou gênero.
“Trump efetivamente venceu essa questão porque os democratas estavam petrificados diante da possibilidade de defender, durante a eleição, uma volta aos tempos áureos do financiamento e da pesquisa em DEI”, afirmou, referindo-se a diversidade, equidade e inclusão.
O Escritório de Gestão e Orçamento da Casa Branca, acrescentou ele, já estava “profundamente envolvido na revisão da concessão de recursos pelo NIH” e trabalhava para estabelecer de forma ainda mais firme o poder do governo federal de encerrar financiamentos de pesquisa.
Salvaguardas para a inteligência artificial
Na terça-feira, os eleitores aprovaram 40 das 41 iniciativas submetidas a votação que têm como objetivo interromper ou limitar o desenvolvimento dos data centers utilizados para criar e operar sistemas de inteligência artificial.
Embora seja improvável que essas medidas tenham um efeito importante sobre o avanço da IA no curto prazo, elas poderão mudar a direção do setor daqui a dois ou três anos.
Nos últimos anos, empresas como Anthropic, OpenAI e Google não teriam conseguido avançar tão rapidamente em IA sem a criação de muitas novas instalações gigantescas de centros de dados projetadas especificamente para essa tecnologia.
A construção dos sistemas de IA mais avançados normalmente exige milhares de chips especializados reunidos em uma rede de centros de dados localizada em um único lugar.
Instalações cada vez maiores destinadas ao treinamento de IA estão entrando em operação. Mas, se alguns Estados impuserem restrições ao desenvolvimento dessas estruturas, isso poderá aumentar a distância entre as empresas líderes em IA e os participantes menores do setor, disse Harry Sudock, diretor comercial da desenvolvedora de centros de dados CleanSpark.
“Quanto maior a empresa, quanto maior o laboratório de pesquisa, mais ela conseguirá navegar em um ambiente que será mais restritivo”, afirmou.
Em outras palavras, empresas como Anthropic, OpenAI, Google e Meta continuarão tendo vantagem sobre todas as demais, simplesmente porque possuem mais dinheiro e maior capacidade de construir novas instalações.
Mas, em sua maior parte, essas e outras empresas estão construindo novos centros de dados para disponibilizar suas tecnologias de IA a pessoas em todo o mundo. Os cientistas chamam isso de “inferência”, em oposição ao treinamento.
Se ficar mais difícil construir novos centros de dados em determinadas partes do país, afirmou Sudock, o custo de usar IA poderá aumentar.
Separadamente, um Congresso liderado por democratas poderia apresentar projetos de lei que restringissem o desenvolvimento dos sistemas de IA mais poderosos em nome da segurança — algo que o governo Trump tem relutado em fazer. Muitos especialistas temem que esses sistemas representem uma ameaça à cibersegurança e possam ajudar na criação de armas biológicas perigosas.
Esses projetos também poderiam criar proteções para detentores de direitos autorais, o que poderia afetar o custo e a dificuldade de treinar sistemas de IA.
O Times processou a OpenAI e a Microsoft em 2023, alegando violação de direitos autorais de conteúdos jornalísticos relacionados a sistemas de IA. As duas empresas negaram as alegações.
Espaço seguro
Para a Nasa, a mudança para o controle democrata do Congresso dificilmente levará a transformações significativas no programa espacial americano, que tem recebido apoio bipartidário consistente.
De fato, republicanos e democratas no Congresso há muito tempo tendem mais a concordar entre si sobre a Nasa do que com o presidente.
Quando o presidente Barack Obama cancelou, em 2010, o Constellation — programa iniciado durante o governo de George W. Bush para levar astronautas de volta à Lua —, o Congresso reagiu e instruiu a Nasa a desenvolver o Space Launch System, o foguete gigante usado no Artemis, o atual programa de retorno à Lua.
Quando Trump buscou, no ano passado e neste ano, cortar quase pela metade os programas científicos robóticos da Nasa, o Congresso ignorou o pedido e continuou financiando a agência espacial em um nível aproximadamente igual ao dos anos anteriores.
Hoje, permanece um forte consenso bipartidário de apoio às missões Artemis, bem como a preocupação de que os Estados Unidos não devem ceder a Lua à China.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
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