sábado, 7 de novembro de 2026
Franca

Adoção de pets no Brasil: por que a permanência importa mais que os números

Especialistas alertam que o foco excessivo em resgates esconde falhas na adaptação e na guarda responsável de cães e gatos.

Adotar não é suficiente. Por que e preciso falar sobre permanência dos pets nas famílias?

O Brasil criou uma sólida cultura de comemorar o acolhimento de animais resgatados, mas ainda falha em monitorar o que acontece após a chegada dos pets aos novos lares. Campanhas públicas frequentemente exibem fotografias de cães e gatos adotados e tratam os tutores como heróis, uma narrativa que mobiliza a sociedade, mas oculta uma contradição preocupante sobre o compromisso de longo prazo.

O mito do adotante herói na proteção animal

De acordo com Greice Moreti, cofundadora do Ronron Cat Café, a decisão de acolher um animal costuma receber mais reconhecimento do que o compromisso de cuidar dele durante toda a vida. Ela considera esse desequilíbrio um dos principais problemas da maneira como tratamos a adoção responsável.

“Ao transformar o adotante em herói, criamos a impressão de que oferecer uma casa já representa uma contribuição suficiente. Não representa. Um animal que passou pelo abandono não precisa apenas sair de um abrigo. Precisa encontrar condições para viver com segurança, receber cuidados veterinários e desenvolver uma relação estável com pessoas dispostas a respeitar suas necessidades, inclusive quando a convivência se torna difícil”, diz Greice.

Falta de indicadores sobre a permanência dos pets

A discrepância entre o sucesso das campanhas e a escassez de dados sobre a continuidade dos vínculos revela uma lacuna nas políticas públicas. Em Curitiba, por exemplo, a iniciativa Setembro Caramelo resultou em 24 adoções, seguida por um evento com 50 cães disponíveis dias depois. Embora louváveis, esses dados refletem apenas a etapa inicial do processo, ignorando se os animais realmente permaneceram nos lares ou se enfrentaram problemas de adaptação.

No cenário nacional, o avanço é visível na identificação eletrônica. Dados federais de abril de 2026 apontam que o SinPatinhas registrou 1.305.529 cães e gatos, alcançando 98,3% dos municípios brasileiros. Contudo, especialistas alertam que a expansão do cadastro digital precisa vir acompanhada de serviços de castração, assistência veterinária e orientação contínua, evitando que o foco se desvie da real proteção.

Desafios na adaptação e no combate ao abandono

Muitas instituições temem que a exigência de maior preparo afaste potenciais adotantes. No entanto, ignorar as dificuldades comportamentais iniciais — como o medo ou a rejeição temporária a ambientes desconhecidos — pode gerar frustração e devoluções. Campanhas como a lançada pela Prefeitura de Vitória em agosto de 2026 reforçam que a prevenção ao abandono começa antes da chegada do animal, combatendo a impulsividade por meio da informação prévia sobre custos e rotina.

A relação entre humanos e animais também precisa superar a lógica da dívida e da gratidão. Um pet não tem a obrigação de corresponder imediatamente às expectativas de afeto do tutor, pois possui individualidade e histórico próprios. A verdadeira eficácia de um programa de adoção deve ser medida pela capacidade de evitar novos abandonos, garantindo suporte técnico, orientação prévia e canais de apoio para que a permanência seja segura e duradoura.

Escrito por

Deixe seu comentário