A perda dos movimentos nas pernas após um traumatismo medular costumava ser encarada como um quadro definitivo nas chamadas lesões completas. No entanto, avanços na área de neuroestimulação estão transformando esse cenário, embora os especialistas reforcem que o tratamento ainda não representa uma cura definitiva.
O papel da medula e a chegada da estimulação elétrica
No Brasil, o país registra anualmente entre 6 mil e 8 mil novos casos de lesão medular traumática, gerando impactos severos na qualidade de vida dos pacientes. As principais causas envolvem quedas, acidentes de trânsito, disparos de arma de fogo e mergulhos em águas rasas. A medula espinhal atua como um complexo centro de processamento para ações automáticas, a exemplo da marcha. Quando ocorre um dano, a estrutura pode perder a comunicação com o cérebro, mas as redes nervosas situadas abaixo da lesão frequentemente sobrevivem, mesmo ficando inativas.
É nesse contexto que a estimulação epidural se apresenta como uma terapia emergente. O procedimento consiste no implante de eletrodos sobre a dura-mater, a meninge mais espessa, com o objetivo de enviar impulsos elétricos diretamente à medula. Esses estímulos atuam de forma semelhante a amplificadores de som, tornando os circuitos nervosos mais receptivos à intenção de movimento e aos exercícios físicos.
Resultados clínicos e limites da recuperação
Investigações científicas sobre o uso da técnica em casos crônicos, especialmente nas lesões torácicas que afetam os membros inferiores, apontam para a retomada de movimentos voluntários, a habilidade de ficar em pé e a execução de passos com auxílio. Por outro lado, em lesões cervicais, que comprometem braços e pernas, os dados ainda se mostram limitados e incertos.
Um ensaio clínico de fase II conduzido no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP avaliou 10 pacientes com paraplegia grave decorrente de lesão torácica crônica. Após o implante e as sessões de reabilitação, a pontuação média na escala motora das pernas subiu de 36 para 64 pontos no período de um ano. Todos os participantes manifestaram algum grau de movimento voluntário com o equipamento desligado entre o quarto e o oitavo mês.
Plasticidade neural e o trabalho em equipe
Experimentos pré-clínicos indicam que a técnica favorece a sobrevivência de células nervosas e estimula conexões sinápticas, protegendo os neurônios e reorganizando redes antes inativas. Contudo, os especialistas ressaltam que o dispositivo médico necessita estar atrelado a um programa rigoroso de neuroreabilitação intensiva, englobando treinos diários de força, equilíbrio e postura.
“A mensagem mais importante é de esperança, porém com cautela”, destaca Guilherme Alves Lepski, neurocirurgião (CRM-SP 93887 | RQE 58379). O médico pontua que o desafio atual consiste em identificar corretamente os pacientes responsivos e conduzir pesquisas de maior escala para consolidar a eficácia da abordagem.




