Embora as celebrações de Finados tradicionalmente acolham a memória de parentes e amigos falecidos, muitas pessoas vivenciam o sofrimento em silêncio quando a perda envolve cães e gatos. Essa falta de espaço para expressar a tristeza reflete um processo ignorado por parte da sociedade.
De acordo com a psicóloga Juliana Sato, especialista em vínculo humano-animal e luto pet, essa dor invisibilizada tem definição técnica. “Na psicologia, o luto que a sociedade não valida é chamado de luto não reconhecido, e a literatura científica descreve a morte de um animal de estimação como um exemplo desse fenômeno”, explica a psicóloga.
Ciência comprova a intensidade da perda de um pet
Pesquisas recentes indicam que o rompimento dessa relação gera impactos emocionais comparáveis aos provocados pela partida de entes queridos humanos. Um levantamento conduzido pelo psicólogo Philip Hyland, da Universidade de Maynooth, na Irlanda, analisou 975 adultos no Reino Unido e foi publicado na revista PLOS One em janeiro de 2026.
Os dados demonstraram uma repercussão profunda nas famílias multiespécie. “Entre os que já tinham perdido um animal e também uma pessoa próxima, 21% apontaram a morte do pet como a perda mais dolorosa que viveram”, conta a psicóloga.
A pesquisa reforça que a mente humana reage de maneira muito semelhante nos dois cenários. “O achado mais importante, porém, é outro: os sintomas de luto prolongado se organizaram da mesma maneira, fosse a perda de um animal ou de um ser humano. Mesmo assim, os manuais diagnósticos usados no mundo todo, a CID-11 e o DSM-5-TR, só admitem o diagnóstico de transtorno do luto prolongado após a morte de uma pessoa. O autor defende que essa regra seja revista”, explica.
O papel da fé e a busca por respostas
A incerteza sobre o pós-morte dos bichos frequentemente angustia quem fica. Uma revisão sistemática divulgada no periódico científico Omega compilou 36 estudos voltados à conexão mantida entre tutores e seus animais após o falecimento, evidenciando como as crenças espirituais interferem nesse processo.
Em um trabalho italiano citado no compilado, participantes que acreditavam na existência de vida após a morte para animais apresentaram uma recuperação emocional mais favorável. Por outro lado, a ideia de que o plano espiritual seria restrito aos seres humanos gerou um luto mais severo, além de casos em que os tutores sentiam culpa ou pensavam estar sob castigo divino.
Para Juliana Sato, a escuta atenta deve prevalecer sobre dogmas pré-estabelecidos: “Não existe uma crença correta para atravessar o luto. Existe a necessidade de que a pergunta sobre o destino do animal seja escutada, em vez de respondida às pressas com um era ‘só um bicho’ ou com uma promessa vazia”, complementa a psicóloga.
Importância dos rituais e o momento de buscar apoio
A permanência de vínculos contínuos com a memória do companheiro de quatro patas é apontada na literatura científica como uma faca de dois gumes, com capacidade de confortar ou intensificar o sofrimento a depender do foco adotado.
Conforme avalia a especialista, “rituais, memoriais, lembranças e até sonhos ajudaram tutores a se sentirem menos sozinhos. Quando o vínculo se organiza em torno da culpa ou dos aspectos dolorosos da relação, o sofrimento tende a aumentar”.
Ações de despedida
Práticas simbólicas podem oferecer acolhimento pessoal durante datas reflexivas. Gestos simples como acender velas, escrever cartas direcionadas ao animal ou visitar o espaço onde descansam suas cinzas servem para canalizar o afeto e validar a saudade sentida.
Contudo, quando a desolação prejudica as atividades cotidianas por um período extenso, a assistência psicológica se torna fundamental. “Quando a saudade, depois de meses, continua impedindo a pessoa de trabalhar, dormir ou conviver, é hora de procurar ajuda profissional. Os profissionais também têm responsabilidade nesse caminho: a revisão aponta que reações de veterinários e profissionais de saúde que minimizam o vínculo do tutor podem piorar o luto”, finaliza a especialista.




