Há pouco mais de 150 anos, uma menina via a primeira menstruação surgir, em média, entre os 16 e os 17 anos. Hoje, esse marco chega, em média, aos 12 anos. Na Alemanha, por exemplo, a idade média da menarca caiu de 18 anos, no início do século XIX, para cerca de 12 ou 13 anos. O fenômeno se repete, com variações, em países como a Espanha, o Reino Unido, a China, a Coreia do Sul e também o Brasil, que registram, cada um a seu ritmo, o mesmo movimento de antecipação.
O papel do estilo de vida e da gordura corporal
Parte da resposta está no estilo de vida moderno. O aumento da obesidade infantil, ocasionado pelo sedentarismo e pelo consumo de alimentos ultraprocessados, é um fator importante a ser considerado. Esse comportamento eleva os níveis de leptina, hormônio que sinaliza ao cérebro que o processo da puberdade pode começar. O uso cada vez mais precoce de maquiagens e cosméticos produzidos para adultos e utilizados por meninas ainda na infância também é apontado por especialistas como uma fonte adicional dessa exposição. Uma revisão sistemática publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health aponta que o tecido adiposo tem um papel central nesse processo. No Brasil, endocrinologistas pediátricos resumem essa relação à gordura corporal como um gatilho biológico, que ocorre quando a criança atinge um determinado percentual de gordura e a leptina sinaliza ao cérebro que o processo puberal pode começar. A exposição a substâncias químicas que interferem no sistema endócrino, como o bisfenol A, ftalatos e outros desreguladores endócrinos, presentes em plásticos, cosméticos, produtos de limpeza e agrotóxicos, já foi associada tanto à antecipação quanto ao atraso da menarca.
Radiografia do cenário no Brasil
Já no Brasil, o ERICA (Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes), primeiro levantamento com representatividade nacional sobre a idade da menarca no país, avaliou 40.803 meninas de 12 a 17 anos, das quais 37.390 já haviam menstruado. A análise apontou idade média da primeira menstruação de 11,71 anos entre pré-adolescentes que já lidavam com a menarca, com mediana de 12,41 anos ao considerar todas as participantes avaliadas. Cerca de 15% das brasileiras menstruam pela primeira vez antes dos 11 anos, e aproximadamente 60% entre 11 anos e 12 anos e 11 meses. A mesma pesquisa também confirmou a relação entre peso e antecipação puberal, revelando que meninas com sobrepeso e obesidade tiveram a menarca antes das que estavam com peso normal.
Impactos clínicos e o avanço dos diagnósticos
O reflexo desse avanço aparece nos diagnósticos clínicos de puberdade precoce, quadro em que os sinais surgem de forma patológica, antes dos limites de idade estabelecidos pela medicina. Na Coreia do Sul, país que hoje concentra alguns dos registros mais detalhados do mundo, a prevalência anual do diagnóstico em meninas saltou de 141,8 para 3.439,9 casos a cada 100 mil, entre o início dos anos 2000 e 2020. Um estudo publicado em dezembro de 2025 pela revista Annals of Pediatric Endocrinology & Metabolism identificou um salto preocupante ao analisar cerca de 196 mil diagnósticos realizados entre 2012 e 2020. Do ponto de vista físico, a puberdade precoce acelera inicialmente o crescimento, antecipando também a maturação óssea. Para muitos pais, a criança que cresce mais rápido no início tende a parar de crescer mais cedo, resultando em estatura final menor do que o potencial genético permitiria. Além disso, a antecipação do desenvolvimento sexual está associada a um espectro mais amplo, com maior risco de depressão, pensamentos autodestrutivos, ansiedade, problemas de comportamento, condições cardiovasculares, metabólicas e ginecológicas na vida adulta, incluindo maior risco de câncer de mama.
A problemática, portanto, não é a ausência de solução médica, mas sim o atraso na percepção dos sinais. Ferramentas tecnológicas e aplicativos de acompanhamento menstrual, como o Sosô: Ciclo sem Drama, desenvolvido pelo casal Verônica Tarsitano e Rômulo Gomes, surgem para auxiliar famílias a registrarem o desenvolvimento de meninas a partir dos 8 anos. Para Verônica Tarsitano, co-fundadora da ferramenta, esse cenário global chega em forma de dúvida cotidiana sobre como diferenciar uma variação normal de um sinal que merece atenção médica. “A gente recebe, toda semana, relatos de usuárias que notaram um sinal, mas levaram meses até procurar um especialista porque não sabiam se aquilo era normal para a idade ou motivo de preocupação. Ter clareza sobre esses marcos etários muda o momento em que a família busca ajuda”, afirma Tarsitano. “Nosso papel não é substituir o pediatra, é dar às famílias um vocabulário e um registro para chegar à consulta com informação de qualidade, o que muda completamente a velocidade do diagnóstico, e a velocidade para os pais significa, principalmente, preservar a saúde emocional da filha que vive esta fase”, completa. No fim, o que os números mostram é que o corpo infantil está mudando num ritmo que a sociedade ainda não acompanhou por completo.




